Presenças memoráveis na última edição do Rock In Rio, as irmãs Lisa-Kaindé Diaz e Naomi Diaz tem revolucionado o mundo da música; da ascensão precoce a aclamação crítica, as irmãs e mentes por trás do renomado projeto de world music Ibeyi (gêmeas em iorubá) chamaram atenção de Beyoncé com sua arte híbrida e decolonial, reivindicando raízes a partir da música e concebendo um universo baseado em nada mais que a honestidade identitária e a liberdade criativa.
Filhas do famoso percussionista cubano Angá Díaz, Lisa e Naomi nasceram em Cuba, porém muito cedo se mudaram para Paris. Antes mesmo de completarem 18 anos, foram contratadas pela XL Recordings, gravadora por onde passaram pioneiros como M.I.A, Peaches, Beck, Thom Yorke e Jai Paul. Afetadas pelo cenário francês e as raízes afro-cubanas, o corpo de obra das gêmeas retrata a diáspora cultural e é sem dúvidas um dos mais potentes e sutis projetos sobre globalização musical. As artistas vieram ao Brasil para o festival e para a divulgação de “Libre”, recente lançamento de Emicida que conta com a participação do duo franco-cubano.
Em entrevista concedida ao Audiograma, as irmãs abrem mente e coração para falar de processo criativo, espiritualidade, política e mais. O resultado você confere agora.

# Então, primeiramente gostaria de agradecer pela entrevista e quero saber de vocês; como vocês conheceram o Emicida?
Lisa: Nós o conhecemos através de um conhecido em comum, nós amamos hip-hop e quando comentamos sobre o Brasil ser o melhor lugar do mundo para fazer um show, Naomi perguntou ‘quais eram os melhores rappers brasileiros?’ e ai conhecemos o Emicida. A identificação foi instantânea, uma coisa de almas entre nós, sabe?! Compartilhamos muitos pensamentos e valores semelhantes sobre criação artística… Foi aí que gravamos “Hacia El Amor” e mais recentemente “Libre”.
# O que ou quais são suas maiores inspirações?
Lisa: Somos inspiradas por tudo, não apenas música. Podem ser várias coisas, pode ser uma foto, uma pintura de Frida Kahlo, uma pintura de Francis Bacon, uma escultura de Rodin, hm…. Nós sempre fomos inspiradas por essas possibilidades. Muito! Ash é um reflexo disso. Somos inspiradas pela cultura hip-hop, música eletrônica, canções folclóricas e pelo Iorubá. Qualquer coisa pode ser inspiração, somos inspiradas pelo povo e pelo que está acontecendo no mundo agora, sabe?! Minha música é reflexo de nossa cultura e de nosso mundo.
# Seu último álbum, Ash, lançado em 2017, é um álbum a frente de seu tempo. Cheio de tesouros inesperados em sua produção; sons diferentes e altamente texturizados… O escutando, me surgiu essa questão: A inovação é um objetivo para vocês ou apenas consequência de sua liberdade criativa?
Lisa: Eu penso que é a consequência de muitas coisas. É a consequência de experimentar muito, de escutar a um monte de música e também consequência do que está acontecendo no mundo. O escrevemos durante a época das eleições americanas e o mundo estava tão elétrico, nós não poderíamos escapar do que estava acontecendo. Transpusemos essa energia eletrônica. Queríamos fazer um álbum profundo e queríamos que ele fosse e soasse “grande”. Eu acho que nosso próximo álbum seguirá esse caminho. E sim, é consequência de todas essas coisas.
# Qual o processo criativo de vocês? Começa com uma frase? uma melodia? uma visão?
Lisa: Geralmente começa comigo compondo no piano e então Naomi rascunha a produção e envia para nosso produtor, Richard Russell. Mas pode ser qualquer coisa.
Naomi: Sim, pode ser qualquer coisa. Qualquer.
Lisa: Pode ser uma frase retirada de um livro, uma melodia ou uma emoção.
# Na última pergunta eu usei o termo “visão” porque a música de vocês tem uma carga emocional bem forte, que evoca uma energia espiritual e política marcante, eu diria… identitária! O quão espiritual é o processo de vocês?
Lisa: É estranho falar sobre o espiritual. Eu acho que todo mundo é espiritual, se você acredita em algo. Hmm… Mas sobre a questão, sim há espiritual em nossas vidas, mas não acordamos todos os dias pensando ‘’Olha, o espiritual, etc!’’ – risos -.
Naomi: Eu acho que o ato de fazer música é algo espiritual. O ato de estar no palco, essa presença, entende?! Estar no palco é uma coisa espiritual… o ato de unificar nós mesmos e a audiência… É o que penso.
# Estamos vivendo no Brasil um momento político muito triste, onde todos os tipos de preconceito e desigualdades aumentaram… Eu escutei a estória por trás da canção “Deathless”¹ e eu gostaria de saber como vocês pensam que a arte pode servir na luta contra o racismo estrutural?
Lisa: Eu acho que a arte pode ser importante no cenário político que estamos inseridos, em todo o mundo. Eu acho que é algo inerte a todos nós, algo que vive dentro de nós e que nós não somos inteiramente conscientes de seu poder. Nós recorremos a música quando estamos tristes, desesperançosos. Eu penso que a arte pode resgatar nossas esperanças e por esses e outros motivos, vamos usar nosso show no Rio como plataforma. Vamos falar disso… Quando cantarmos “Deathless” vamos estar pensando em Agatha. Sabemos o quanto isso é importante, muito importante.
# Então pensando dessa forma, podemos pensar música sem pensar política? Ou ser um artista já é um ato político?
Lisa: Eu acho que é algo desse tipo… Eu diria que ser livre é um ato político, ser você mesmo é um ato político, ser fabuloso, brilhante, é um ato político. Ser gentil, ser aberto aos outros, apreender. Todas estas coisas são atos políticos. Eu acho engraçado como as pessoas pensam sobre artistas serem ou não todas essas coisas. Você pode ser um advogado, uma garçonete, o que seja! Tudo se trata de como você se empenha a aprender com os outros, com diferentes culturas e não ter medo. Nós apenas evoluímos através do respeito às individualidades. Esse é o caminho avante.
# Mudando de assunto, vocês tem alguma colaboração em vista?
Lisa: Não sabemos ainda, mas…
Naomi: Sim, sim. Não podemos falar pois é incerto ainda.
# Sobre o próximo álbum; o que podemos esperar?
Lisa: Certo, primeiro de tudo; ele não vai sair tão cedo. Ele vai demandar tempo porque precisamos de tempo para pensar e viver. Mas terá hip-hop e será o melhor álbum que já fizemos, não que os outros não sejam bons, mas éramos muito novas, estamos prestes a fazer 25 anos, começamos a escrever nosso álbum de estreia aos 14 anos, éramos adolescentes, agora somos mulheres.
¹.: “Deathless”, canção presente no álbum Ash (2017), relata um episódio de racismo vivenciado por Lisa, que foi presa injustamente pela polícia francesa, em ambiente público; “Por ter cabelo afro e creio que pensaram que eu vendia drogas. Mas o mais difícil não foi ser presa, foi ver que ninguém ao meu redor fez nada”.